O Brasil importa 85% dos fertilizantes que consome. Com dólar volátil, guerra na Ucrânia e tensões no Oriente Médio, o custo de plantar já subiu — e a safra 26/27 ainda nem começou.
Antes de colocar a primeira semente no solo, o produtor rural brasileiro já está refém de uma guerra que não é dele, de um câmbio que ele não controla e de uma dependência construída ao longo de décadas por escolhas que não foram suas.
O paradoxo do dólar
Quando o dólar sobe, o noticiário celebra: o agro exporta em moeda forte. O que o noticiário não conta é que, para boa parte dos produtores, o dólar alto encarece tudo o que precisa comprar antes de vender.
Mesmo com alguma vantagem na compra de insumos em momentos de câmbio favorável, os custos com fertilizantes, diesel e logística permanecem elevados, limitando a melhora da relação de troca. O resultado é um cenário em que o produtor vende pior em reais e não consegue compensar essa perda.
STF
Em 2026, quem não travou o preço dos fertilizantes no segundo semestre de 2025 está vendo o dólar alto trabalhar apenas para pagar a conta do fornecedor estrangeiro. A janela de hedge existia. Mas exige conhecimento financeiro que grande parte dos produtores médios e pequenos ainda não tem — ou não teve acesso.
Agência Brasil
A dependência que virou bomba-relógio
O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome — a maior dependência entre as grandes economias agrícolas do mundo. Em 2025, isso representou cerca de US$ 16,4 bilhões em importações.
Brasil de Fato
Essa dependência não nasceu do acaso. A trajetória ganhou força a partir de 2016, quando a Petrobras decidiu encerrar sua atuação na fabricação de fertilizantes. Três unidades foram arrendadas ou fechadas nos anos seguintes.
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O problema se agravou com a geopolítica. Rússia e Belarus juntos respondiam por cerca de 40% das exportações mundiais de potássio antes de 2022. Com as sanções após a invasão da Ucrânia, o mercado global de fertilizantes entrou em colapso — e em 2026 ainda não saiu completamente do buraco.
Brasil de Fato
Agora, um novo risco se soma: o governo brasileiro identificou “alto risco real de um déficit entre 1 e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026, suficiente para comprometer a produtividade das safras 2026/2027”, segundo nota técnica do Ministério da Agricultura.
SciELO Brazil
China substitui Rússia — mas o problema continua
Em 2025, a China ultrapassou a Rússia pela primeira vez como maior fornecedora de fertilizantes ao Brasil. Troca de dependência, não fim dela.
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O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022, prevê reduzir a dependência dos atuais 85% para entre 45% e 50% até 2050 — meta que especialistas avaliam estar distante de se concretizar. Enquanto isso, em 2026, o custo de fertilizantes nitrogenados e potássicos superou R$ 3.500 por tonelada em diversas regiões do país.
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Socioambiental
O que o produtor pode fazer agora
A solução estrutural — produção nacional de fertilizantes — é uma questão de décadas, não de safras. No curto prazo, as ferramentas disponíveis são o planejamento antecipado de compras, o uso do Zarc para reduzir desperdício de insumos em janelas de risco climático alto, e os contratos futuros para travar custos antes da volatilidade bater.
O Rabobank projeta o dólar em torno de R$ 5,55 ao fim de 2026, influenciado por incertezas fiscais, ambiente eleitoral e tensões geopolíticas. Quem ainda não está gerenciando risco cambial como parte do planejamento da safra está, na prática, especulando — mesmo sem saber.
Fontes: Rabobank Brazil Agribusiness Quarterly Q1 2026; Ministério da Agricultura (MAPA/ANDA); Cibra Fertilizantes; Revista Oeste; Gazeta do Povo.